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21 março, 2009

bombardeio de sacos de areia durante a II Guerra em Fortaleza

Graças a Bruno, ontem li no site do gordo uma história que o vovô Sinésio sempre contava pra gente. Ele conta que durante a II Guerra em Fortaleza haviam exercícios com a população civil para um eventual bombardeio do alemães. As sirenes tocavam avisando do bombardeio e então vinham aviões do aeroculube de Fortaleza que atiravam saquinhos de areia de seus aviões nos desavisaos que não buscavam abrigo. Durante o "bombardeio" se podia buscar abrigo em qualquer lugar, o que dava a chance de alguns rapazes esperarem o bombrdeio proóximo a casa de mulheres distintas.

Aqui vai uma passagem do livro "A história da aviação no Ceará" (Augusto Oliveira, Ivonildo Lavôr. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora Ltda. 2007) que Bruno digitou e que está no site do gordo. Estou tentando comprar o livro, mas até agora sem sucesso. Quando tiver alguma notícia de onfde encontrar o livro publico aqui no blog. Leiam o trecho.

Enumeramos, a seguir, alguns fatos pesquisados sobre a Segunda Grande Guerra em Fortaleza. Além de livros, revistas, jornais e narrativas do jornalista e escritor Geraldo da Silva Nobre, conversamos com o veterano e saudoso piloto do aeroclube do Ceará, Hélio Guedes Pereira. Veja a seguir.

De acordo com Geraldo Nobre, a partir de junho de 1941, Fortaleza intensificou exercícios de “defesa passiva”. Os treinamentos com a população levavam em conta possíveis ataques inimigos…

A população estimada de Fortaleza em 1941 era de 180.185 habitantes, os habitantes vivenciando um total clima de expectativa em torno de um conflito mundial.

Havia muita desinformação e despreparo. Essas foram as condições que os Fortalezenses “enfrentaram” com os terríveis inimigos dos aliados, as forças do Eixo.

Segundo o jornal O Povo, edição do dia 26 de janeiro de 1943, “foi realizado domingo, na zona fabril de Fortaleza, o segundo exercício de defesa pacífica antiaéreo, promovido pela diretoria regional…”

Às 9h30min precisamente, os bombeiros que se localizavam na torre de comando do quartel, no edifício da Praça Fernandes Vieira (Praça do Liceu), anunciaram a aproximação dos aviões inimigos. A medida era tida como necessária para “preservar” a cidade de possíveis ataques por submarinos.

Geraldo Nobre relata também que “o setor civil, encarregado da defesa, orientava para que as famílias pintassem de preto as vidraças das janelas e portas para impedirem, que à noite, devido à iluminação interna das casas, principalmente aquelas que ficavam mais próximas da orla marítima, fossem alvo também da ação dos inimigos”…

“Em agosto de 1942, o Brasil já participava da 2ª Guerra ao lado dos aliados. Os cearenses temiam que a capital cearense fosse ponto estratégico para a guerra na África, sujeita, portanto, a possíveis bombardeios”, lembra o historiador.

Imediatamente, ainda segundo o jornal, “as sirenes soaram o alarme. Os aparelhos do aeroclube do Ceará, em número de quatro, sobrevoaram a zona visada, atacando de preferência, os prédios do liceu e do corpo de bombeiros”.

O jornalista e escritor Geraldo Nobre, em entrevista ao Jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza, em 24 de maio de 1995, data comemorativa dos 50 anos da vitória dos aliados na 2ª Guerra Mundial, disse que o corte de energia elétrica era sempre feito à noite, mantendo a cidade sobre blecautes, medida antipática e que causava medo à população.

Geraldo Nobre fala também de notícias alarmantes que aqui chegavam e alimentavam cada vez mais o sentimento de medo da população, ensejando as autoridades militares e civis que organizassem um serviço de defesa para a cidade.

Treinamentos diários de sobrevivência eram realizados com a população. Os fortalezenses quase entravam em pânico a cada simulação de “bombardeio” que era realizado pelos monomotores do aeroclube do Ceará.

O veterano e saudoso piloto do aeroclube do Ceará, Hélio Guedes Pereira, disse que durante 30 minutos vários aviões – sendo um deles, sem dúvida, pilotado pelo mestre Hélio – sobrevoaram a cidade em vôo rasante, principalmente sobre as Praças do Ferreira, José de Alencar e Praça do Liceu.

Como as antigas aeronaves não tinham luzes de navegação, Hélio Guedes Pereira informou que a saída encontrada pelos pilotos da época era amarrar lanternas na montante dos aviões para evitar possíveis colisões. “Sirenes eram acionadas e o povo corria para se abrigar como se a cidade estivesse sendo realmente bombardeada”, disse.

Mestre Hélio contou ainda que os pilotos, logo que avistavam um transeunte, tentavam acertá-lo com pequenos sacos de cal.

Cenas hilariantes aconteceram durante os “bombardeios”, relembrou o experiente piloto. Segundo ele, o fato mais engraçado de todos ocorreu com o comandante do corpo de bombeiros, na época o capitão PM José Nogueira Caminha. “Ele foi atingido por um dos sacos de cal, um petardo de 500 gramas”, disse. O citado militar, segundo ainda Hélio Guedes, que era também membro da defesa passiva, ficou muito envergonhado com o acidente.

Ainda como defesa da cidade, descreve Hélio Guedes, “foram transferidos para o farol do Mucuripe (farol velho) cerca de 12 canhões da marca krupp, com o objetivo de revidar possíveis ataques alemães”.

Na realidade os velhos canhões fabricados na Alemanha pouco poderiam fazer com relação a possíveis ataques submarinos. Eram armas de artilharia próprias para serem utilizadas terra-a-terra. Além disso, tinham o alcance médio de no máximo dois mil metros.

14 outubro, 2008

Tio Xixi

Outro dia estava falando com o vovô Sinésio e a vovó Diva sobre os 'Franciscos' da família. Eles me disseram que o vovô tinha um tio que se chamava Francisco, mas que todo mundo o chamava de 'Xixi'. O intressante é que o tio Xixi era o pai do primo Flósculo. Encontrei a história do tio 'Xixi' no site da família Lustosa, que reproduzo aqui embaixo:


UM POUCO DA HISTÓRIA SOBRE XIXI COMO SE FEZ JORNALISTA

Nasceu Francisco Lustosa Cabral (Xixi), na fazenda “São Bento” deste município a 21 de abril de 1871, sendo seus pais João Bento de Figueiredo da Costa Araújo e Vicência Lustosa Cabral.
Em moço dedicou-se ao comércio. Contraiu núpcias com Joana de Castro Cabral, tendo uma única filha, Olindina, falecida, e das segundas núpcias com Maria Dolores Cabral, provieram Flósculo, desaparecido há pouco tempo, Nelson, Levi, Vinicius, Wilson, Waith, Emília e Olga Lustosa.
Militou ardorosamente na política de Venâncio Neiva e com a deposição deste, em 1892, conservou-se fiel ao seu partido obedecendo, em Patos, à chefia de José Herculano Bezerra Luna que havia sido deputado à Constituinte.
Apesar do ostracismo prolongado desse partido, jamais o abandonou e deixou de se esforçar pelo seu soerguimento.
De uma feita, indo à Paraíba, (hoje João Pessoa), aproximou-se de Coriolano, seu parente afim, e depois de conversarem amistosamente foram ter com Arthur Aquiles, na redação do seu jornal.
O “pai da imprensa paraibana” ficou impressionado com a palestra do sertanejo, dado o modo desembaraçado de narrar as coisas a ponto de lembrar nessas horas, o seu nome para correspondente do jornal em Patos-Pb.
-- “Qual major Aquiles, quem sou eu para escrever em jornal desconheço a técnica da imprensa, não tenho habilitação para desempenhar o ofício”, disse.
-- “Isso não importa, faça o que puder quero é que mande seja o que for, o mais se arranja por aqui”, retorquiu Arthur Aquiles.
Quando Xixi chegou em Patos, rabiscou sua primeira notícia, enviando-a para o grande jornalista. Este, ao deparar com o artiguete, publicou-o quase sem retoques e disse: “esbocei mais um companheiro para as lides jornalísticas de minha terra”.
Deste modo, o nosso inesquecível Xixi filiou-se à vanguarda dos fazedores de jornal e tornou-se, de fato, mesmo jornalista.
Com a subida de Álvaro Machado na política da Paraíba, ficaram os venancistas apeiados, à margem, aguardando um dia ... o toque do clarim.
Sem outros recursos ou meio, foram-se aos poucos, aconchegando ao partido dominante e, ao mesmo tempo conseguindo, alguns deles, posições de certo relevo nessa política que se plantara firmemente em todo o Estado.
Com o falecimento de José Herculano, o nosso biografado e mais alguns elementos venancistas existentes em Patos tratarem de uma aproximação com a política local chefiada por Leôncio Wanderley, Manoel Gomes e Miguel Sátiro, a exemplo do que estavam fazendo noutras partes, principalmente na Capital do Estado.
Dada a capacidade de trabalho e inteligência, ficou Miguel Sátiro superintendendo a política de Patos e posteriormente comandando só, sem mais compromissos com os dois chefes relacionados.
Nessa fase Xixi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . da política municipal e ao mesmo tempo ia incutindo-lhe no ouvido o grande prestígio de Epitácio na política nacional. Dando-se o rumoroso pleito de 1915, surgiu de fato, a figura monumental de Epitácio Pessoa com chefe e legítimo representante de Venanâncio Neiva. Sua propaganda foi destemerosa por todo o Estado, apoiada na democratização do governo Castro Pinto. Acolitado por uma plêiade vigorosa de homens da têmpera de Genésio Gambarra, com seu intemerato jornal “A Voz do Sertão”, José Peregrino, Cel. Tota, Roldão Meira, e outros conseguiu Xixi Cabral bandear Miguel Sátiro que contava com um núcleo eleitoral apreciável para as hostes epitacistas, concurso este valiosíssimo, sem o qual não conseguiriam os URUCUBACAS, o triunfo almejado naquele pleito.
Por essa adesão de Miguel Sátiro ao partido epitacista recebeu Xixi copiosos telegramas de Epitácio Pessoa, Venâncio e Pedrosa em agradecimento pelos vantajosos serviços prestados ao partido cujo êxito foi coroado de loiros pelo concurso de Patos, Teixeira e a Capital com a adesão de Miguel Sátiro, Dario Ramalho e Inácio Evaristo, respectivamente chefes das três localidades supra mencionadas.
Tempos depois da consolidação dessa política, a grel epitacista bipartiu-se em “Guelas” e “Jovens Turcos”.
Xixi Aliou-se aos “jovens turcos” e por estes nomeado chefe da mesa de renda dos municípios de Sousa e depois de Teixeira e Monteiro, cargos que desempenhou com altivez e competência.
Tomando os “Guelas” a posição de mando com a ascensão de Camilo de Holanda à presidência do Estado, ficaram os “Jovens” desprestigiados, sendo o primeiro ato desse administrador a demissão do Xixi. Só depois, no governo Solon (chefe dos Turcos), foi reparado o ato, tendo o nosso biografado exercido, ainda, o lugar de administrador das rendas do município de Batalhão, até o governo de João Pessoa.
Era assíduo colaborador da imprensa indígena e faleceu a 13 de abril do corrente ano (1948), confortado com os sacramentos da Santa Igreja Católica, deixando entre os parentes uma saudade imorredoura acrisolada no bem que em vida lhes proporcionou.

Patos, 30.04.1948

“A IMPRENSA” -- João Pessoa – Sábado, 15 de maio de 1948

Família Lustosa

Encontrei um site interessante que conta um pouco da história da família Lustosa. É só clicar no link.
http://www.genealogialustosa.com.br/

08 janeiro, 2008

A vida de empresário no Brasil

Li um artigo agora a pouco intitulado O que Portugal nos legou? Um balanço de 1808-1822 e as perspectivas do presente de autoria do diplomata Paulo Roberto de Almeida, publicado na Revista Espaço Acadêmico (artigo na íntegra pode ser viasualizado clicando no link).

O autor faz um comparativo da situação econômica e política do Brasil desde a chegada da família real Portuguesa ao Brasil em 1808. Não vou copiar muita coisa do texto aqui porque acho que vale a pena ler o original, mas gostaria de parabenizar os empresários brasileiros, incluindo meus pais, pelo grande trabalho de gerenciar uma empresa no Brasil. O autor cita um exemplo interessante da quantidade de impostos cobrados no país. De acordo com uma análise feita por uma empresa internacional são necessárias 2600 horas por ano para que uma empresa cumpra todas as suas obirgações fiscais. Esse número se traduz em 352 dias de trabalho... Aqui vai o trecho, mas vale conferir o artigo para ver como era a situação no século XIX:

E agora, em matéria de impostos, taxas e contribuições, o que temos hoje? Existem, hoje, 76 tributos federais, 12 estaduais, 15 municipais, além de 5 outros “latentes”, isto é, que podem vir a ser implementados (entre eles o das “grandes fortunas”), num total de 109 impostos, taxas e contribuições, sem contar pedágios e cobranças por serviços específicos. Este é o quadro de terror tributário, sem considerar a burocracia do sistema declaratório, que consome dias e dias e de vários contabilistas, apenas para cumprir as obrigações e provar ao Estado que somos honestos e cumpridores dos nossos deveres de contribuintes (tosquiados). De fato, segundo as informações de consultorias especializadas, numa lista de 178 países, Brasil é aquele em que o empresário mais perde tempo nessa atividade: são 2.600 horas só para pagar impostos. O Brasil é campeão na quantidade de horas gastas para que uma empresa pague todos os impostos e tributos. De acordo com análise da PriceWaterhouseCoopers, com base nos dados reunidos pelo Banco Mundial, são necessárias 2.600 horas (352 dias) para que uma empresa cumpra todas as obrigações fiscais, o que deixa o Brasil em último lugar entre 178 países.
Aqui vai outro trecho, onde o autor Paulo de Almeida compara a burocracia do modelo Português, estabelecida quando o Brasil se tornou colônia, com o modelo anglo-saxão:

O que surpreende no modelo ibérico de administração, preservado em grande medida até os nossos dias, é que tudo tenha de ser autorizado ou ordenado pelo príncipe, mediante um decreto, um alvará régio, um instrumento qualquer da autoridade política. O que, por outro lado, faz a eficiência do modelo anglo-saxão de organização social e econômica, é que tudo o que não estiver expressamente proibido em alguma lei aprovada por um parlamento ou conselho, está ipso facto autorizado e aberto à iniciativa privada, exatamente o contrário do que ocorria no mundo português e ainda ocorre entre nós.

De fato, a julgar pelo PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, continuamos cingidos pela autoridade política, circunscritos ao que ela possa determinar, autorizar, permitir, se dignar a nos deixar trabalhar. A mania que temos de tornar toda e qualquer atividade dependente das boas graças da administração é propriamente irracional, sobretudo quando sabemos que o processo burocrático de autorizações e permissões está eivado de descaminhos corruptores.





24 junho, 2007

Uma história dos Ximenes

Outro dia encontrei uma história muito interessante sobre os Ximenes que vieram ao Brasil no site do primo Ximenes Filho Gênesa da família Ximenes (coloquei o link do site ai do lado direito também porque vale a pena visitar o site!), que aqui reproduzo.


Saindo de Lisboa em 1° de abril de 1585 a nau Santiago, com destino para índia, vindo a naufragar em 19 de agosto do mesmo ano, a 22 graus e 1/3 distante sete ou oito léguas do baixo da Índia, pelo lado do nordeste, tendo como capitão-mor Fernão Mendonça; piloto Gaspar Gonçalves; mestre Manuel Gonçalves. A nau transportava 450 pessoas, e centenas delas perderam suas vidas, salvando-se entre outros os irmãos Gaspar Ximenes e Fernão Ximenes, “Os quais eram dois homens muitos honrados e naturais de Lisboa, e tinham muitos amigos na lancha” que por muito custo chegariam, com alguns náufragos na praia que ficava a mais de cento e vinte léguas do local do naufrágio.

O nome desses dois irmãos figura na história por terem dado o mais comovedor exemplo de amor fraternal.

Após o naufrágio, muitas pessoas foram para o barco salva-vidas e o comandante do bote reconheceu ser indispensável lançar ao mar 17 pessoas, porque o barco poderia afundar por casa do peso em excesso. O comandante do barco salva-vidas era Duarte de Melo, e as vítimas eram designadas por homens de confiança de um religioso franciscano Thomas Pinto. Algumas das vítimas que sabiam nadar, tentavam subir no barco, mas alguns dos que ficaram dentro do barco decepavam-lhes as mãos com as espadas implcavelmente. Salvaram-se, em uma lancha, 57 pessoas que sofreram as maiores inclemências e privações.

Foi então que se deu um caso extraordinário de amor fraternal que ficou célebre através dos tempos. Na barco salva-vidas iam Fernão Ximenes e Gaspar Ximenes, irmãos e naturais da freguesia de São Cristóvão de Lisboa onde tinham sido criados. Como sem qualquer razão nenhum deles foi sacrificado pelos terríveis juízes, produziu-se entre os náufragos um movimento de protesto, alegando que era uma barbaridade serem sacrificados homens que eram o amparo de suas famílias, e que ficassem a bordo dois irmãos, um dos quais, podia ser lançado ao mar. Em face deste protesto, os juízes executores, que eram quatro, não esperaram que os ânimos se acirrassem mais; lançaram mãos a Gaspar Ximenes, que era o mais velho e menor de corpo, para jogá-lo na água quando Fernão que era mais magro, agarrando-se a ele com todas as forças que o desespero lhe dava, gritou, chorou e suplicou a Duarte de Melo, que o sacrificado deveria ser ele, já que seu irmão Gaspar era o mais velho e, por isso, iria fazer às vezes de pai de suas irmãs e amparo de sua mãe. Dito isso e sem mais delongas se jogou ao mar, mostrando uma coragem e uma frieza de ânimo que assombrou a todos.

Gaspar Ximenes, salvo pelo irmão, chorava e suplicava aos seus companheiros de infortúnio que se apiedassem do heróico moço, mas as suas súplicas não encontraram eco.

Enquanto isso, Fernão Ximenes refugiara-se com os outros náufragos em uns penedos, mas logo depois tornou-se a lançar-se ao mar já que esta era sua única salvação. Nadou vigorosamente atrás do barco salva-vidas durante três horas. Seu irmão, vendo-o condenado a uma morte horrível, redobrava as súplicas, que já iam importunando os mais egoístas da companhia, sendo preciso que alguém o aconselhe-se em voz baixa que sufocasse a sua dor, para não correr o risco de ser também lançado ao mar. Por fim, pôde mais que as lágrimas e as rogativas de Gaspar a intrepidez de Fernão, que começou a abalar o ânimo de alguns dos náufragos que seguiam a sua luta desesperada pela vida. Num dado momento, alguns do homens que acompanhavam a saga de Fernão e não podendo suportar por mais tempo a crueldade daquele espetáculo, gritaram que se recolhesse o infeliz nadador, que talvez nisso não houvesse perigo para os outros, e que só fosse abandonado à sua sorte se efetivamente se reconhecesse absoluta urgência de o fazer.

Este movimento de compaixão foi tão eloqüente e tão espontâneo, que os menos inclinados à piedade não puderam resistir-lhe, e disse-se então a Fernão Ximenes que subisse para a lancha. Mas ele é que já não o podia fazer, porque estava extenuado, e foi preciso estender-se um chuço, a que se agarrou, para o recolher a bordo quase desmaiado. Mais alguns instantes decorridos, e o heróico mancebo seria tragado pelo mar. O barco chegou no litoral a 29 de agosto de 1585.

Esta história tornou-se célebre. Os náufragos sobreviventes contaram-na diversas e diversas vezes, e o nome dos irmãos Ximenes notabilizou-se, não só em Portugal, como também no estrangeiro, onde esse episódio foi narrado em vários livros e músicas como:

  • “A chusma salva-se assim” letra e música de Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias nascido 26 de novembro de 1948, em “Crônicas da terra ardente - 1994”;
  • História Trágico-Marítima, Bernardo Gomes de Brito 1688-1759, 6 volumes;
  • Miscelânea, diálogo II, pág. 38 e 39, de Miguel Leitão de Andrada, 1867;
  • Enciclopédia Histórica de Portugal, volume XII, de Duarte de Almeida, pág. 343 a 345;
  • História Trágico-Marítima, volume III, pág. 84 a 88, de Bernardo Gomes de Brito 1688-1759, veja também Relação do naufrágio da nau Santiago, escrita por Manuel Godinho Cardoso, pág. 84 a 88.
Querem saber mais histórias da família Ximenes? Então acessem o site do primo Ximenes Filho. Se vocês tiverem fotos ou outras histórias, vale a pena entrar em contato com o primo, já que ele tem em livro toda a genealogia da família. Foi o primo Ximenes Filho quem mandou a foto dos tataravós publicada no post anterior.

14 abril, 2007

A libidinosa Côrte Espanhola

Estou lendo um livro muito interessante, chamado "Foundations of the Portuguese Empire 1415-1580", escrito pelo Bailey W. Diffie e George D. Winius. Uma passagem do livro que achei muito interessante é quando o Diffie descreve a rivalidade entre Espanha e Portugal e as diversas estratégias para apaziguar os ânimos.
Uma dessas estrategemas era, claro, o casamento entre os príncipes de ambos os lados. Em 1455 Juana, irmã de Afonso V de Portugal casou-se com Enrique IV, que governou Castilha entre 1454 e 1474. Vou aqui traduzir exatamente as palavras do Diffie na página 148 pra não perder nenhum detalhe.
"Vivendo em uma côrte que mesmo para os padrões reais daqueles tempos era considerada anormalmente libidinosa, Juana supostamente usou das liberdades que o rei permitiu a si e à sua corte. O resultado dessa libertinagem foi a dúvida que surgiu em relação a paternidade da filha de Juana, que também recebeu o nome de Juana, herdeira do trono de Castilha. Ela foi motivo de chacotas, conhecida como 'Juana la Beltraneja' porque de acordo com as fofocas da época ela era filha de Juan Beltrán de la Cueva ao invés de ser filha de Enrique IV, que concordou em um momento posterior que ele não era o pai da criança."
Um dos resultados dessa dúvida em relação a paternidade de Juana foi uma outra Guerra entre Portugal e Espanha quando Enrique (o corno?) morreu. Como o próprio Diffie ressaltou, esse casamento não foi o primeiro e nem o último entre as famílias reais dos dois países.

Tia Márcia, estou lendo algumas coisas sobre a Guerra Peninsular e dentro em breve coloco um post aqui.

21 março, 2007

A Guerra Peninsular

Estou fazendo uma tradução de uns documentos de um soldado inglês que lutou ao lado do Exército Português durante as incursões de Napoleão na Península Ibérica, também conhecida como Guerra Peninsular (1807 - 1814).

Muito interessante a história do sujeito. Até onde eu traduzi o Capitão X (vou ver se posso colocar o nome dele aqui) mostra que foi capitão do exército inglês e, depois, do exército português. O Capitão X alega que estava na relação para receber uma medalaha por participar no campo em cinco campanhas durante a Guerra Peninsula. Até onde ue traduzi ele não conseguiu provar tal fao porque o comandante do quartel que fez a lista abandonou o posto ou morreu, não deixando a tal da lista disponível.

O Capitão X também acompanhou a corte Portuguêsa ao Brasil, ou se juntou pouco depois. No período em que ele viveu no Rio de Janeiro ele alega ter subido até o posto de Major o que, novamente, ele não consegue provar ainda. Num dos documentos ele requere a presença de uma testemunha do alto escalão do exército para comprovar a sua história.

Ele usa esa promoção de major em um pedido para ser posto na reserva do exército, recebendo uma pensão de acordo com a sua patente (ele recebeu sim o direito a uma pensão de Capitão). Não percam os próximos episódios.

Enquanto isso vale a pena ler sobre o que foi a Guerra Península, que resultou na fuga da corte portuguesa para o Brasil. O link da wikipédia é um bom começo.

06 dezembro, 2006

Seda, musseline, cravo, canela e pimenta do reino...

... foram os principais motivos que levaram os conquistadores dos séculos XV e XVI a se aventurarem num mundo que era plano. Tudo porque os turcos (os maiorais da época)conquistaram maior parte do Leste Europeu, incluindo os portos do Mediterrâneo que escoavam os produtos Orientais para Gênova e Veneza e dai pros outros centros Europeus.

Estou lendo um livro bastante interessante sobre a viagem do Endeavour, o barco comandado pelo Capitão Cook, que descobriu a costa Leste Australiana, apossando a 'Nova Holanda' (Austrália) para a coroa Inglesa em 1769. Olhem que interessante este trecho do "The Voyage of the Endeavour" de G. Arnold Wood:

"There were certain good things that came from Asia, and only from Asia, which every lady and every gentleman must have. Ladies and gentlemen cannot live as ladies and gentlemen ought to live, unless they have muslins (musselines) and silks and jewels and spices; and muslins and silks and jewels and spices came from Asia, and from nowhere eles."

Ah, é bom dizer aqui que Portugueses, Espanhóis e Holandeses já desconfiavam da existência da Austrália. Os últimos chegaram inclusive a mapear trechos das costas norte, oeste e sul, 'descobrindo' a Tasmânia e a Nova Zelândia. No oeste da Austrália tem, inclusve, um recife chamado Abrolhos, exatamente o mesmo nome dos nossos recifes do Sul da Bahia. Isso porque a expedição Holandesa (ou seria Espanhola?) que mapeou parte do Oeste da Austrália possuia um piloto portugues chamado Joaquim (ou seria Manoel?).

Pena que o glamour do final da Idade Média com seus Tecidos e Especiarias acabou. O Petroléo de hoje em dia não tem o mesmo charme!